quinta-feira, 27 de setembro de 2018

O ANJO DA MORTE

Ao soprar, deu-me vida 
E vim habitar esta terra perdida
Onde vagam os mortos condenados à  existência. 

Arrancada da primeira morada 
Abandonada  me  vi, sem abrigo da  chuva  ou do sol 
E quando acabaram-me as forças,  ele apareceu. 

O anjo da morte trazia esperança
Numa caixa de ouro com dois  corvos de  ouro ao redor 
Era a saída, o abrigo, a salvação - ou maldição. 

Estendeu-me os braços e  eu fui
Desorientada, recém moldada
Desamparada pela terra que  deveria me sustentar. 

O anjo da morte olhou-me  nos olhos
Tomou-me em seus braços e me embalou
Onde senti-me querida, bem-vinda, protegida.

Logo em seguida, porém, tudo mudou:
Em seus olhos havia fogo e, nas mãos, força  bruta  e  cruel
Foi a primeira  vez  em que sugou  minha  alma.

Inocência, pureza,  encanto
Vi aos poucos deixarem meu espírito
- Que mal fiz? questionei-me, sem conhecer  bem  o  que  viria a ser mal. 

Assim, minha luz foi se apagando
Meu brilho perdendo  as forças
Meu corpo, de vivo, tornando-se  morto.

E passaram-se os anos, séculos para  mim
Aprisionada na caixa de ouro
Onde  meus  únicos tesouros eram trevas e  frio.

Meus tormentos e brados não me acudiam
Despertavam, porém, a ira dos mortos
Que  preferiam o silêncio ao barulho  da  veracidade  dos fatos.

Até que me tornei um defunto
Estava  assim, pronta para sair da  caixa  e  ser  lançada  fora
Para sobreviver, resistir e existir  sozinha. 

Vi meus sonhos virarem  pesadelos
Até  que  me esqueci  de  como se  sonhar e passei a deixar a vida passar
Diante dos meus olhos como as  borboletas  na  primavera.

-Amara

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